domingo

E despedaça-se mais um coração

A dor lhe transbordava pelos poros e nada podia fazer para acabar com aquele sofrimento. Era uma dor espiritual, muito pior que uma dor física, não era o fígado, não era um joelho, não era nos pés. Era dor que não se sente doer, era dor que apenas se sente existir.

Sabe-se lá o que se passava em sua mente, sabe-se lá quantas células se multiplicavam, tristemente, em seu corpo. Naquele intante era apenas dor e doía cada vez mais, cada vez mais forte. E a dor não o matava, torturava-o. Os arrepios não paravam de chegar. Os calafrios se espalhavam por seu corpo. Os copos se entornavam antes de lhe tocarem os lábios. Toda a sede que sentia era por paz. Fome não tinha. Até a fome lhe abandonara. Até as vontades mais simples lhe eram tão somente vontades sem razão. E a razão cabia em seu bolso. Seu dinheiro era líquido, seu destino vazio. Pois trate de encher minha alma feita de vidro embaçado! Os pensamentos que lhe escorriam garganta abaixo eram queimantes. Causavam-lhe azia, não eram suficientemente bondosos a lhe causarem ânsia.E tudo o que passava em sua mente era dor, enquanto os olhos pesavam, cheios de lágrimas profusas.

Não há imagem lúdica que o descreva. Não há palavra que o defina. Que definhe, enfim! Deixe-me em paz, por enquanto durarem meus sentidos e meu sentido for certo. Se é que há certeza em qualquer parte. Já que eu ainda acredito nela, mas ele, sábio do momento desfeito, sabe que nem a morte é certa, pois se fosse, já o teria acertado.