sexta-feira

bendita ignorância

O mínimo do máximo

Tempo lento,
espaço rápido,
quanto mais penso,
menos capto.
Se não pego isso
que me passa no íntimo,
importa muito?
Rapto o ritmo.
Espaçotempo ávido,
lento espaçodentro,
quando me aproximo,
simplesmente medesfaço,
apenas o mínimo
em matéria de máximo

Paulo Leminski


Paulo Leminski desgraçado! Deixou-me sem palavras...

quarta-feira

falando nisso...

Não são apenas luzes, árvores enfeitadas, o coitado do peru na bandeja, os presentes, as nozes. Não é o trenó, ou velho barbudo dentro dele. Não é a ceia, o champanhe, as frutas secas, o panetone.

Falo da noite mágica, mesmo com aquele tio que bebe um pouco mais que uma taça de vinho, aquela tia que nunca acerta o presente, aquele parente que não pôde comparecer à festa, aquele primo que conta piadas sem graça, aquele priminho que derruba o suco na sua roupa nova...

Eu falo das mensagens nas cantigas dos corais, das palavras nos cartões, dos abraços antes da ceia, da espera das crianças pelos presentes, das risadas durante o jantar. Falo da família acordada até tarde, dos votos sinceros de felicidade, das boas recordações de anos anteriores, do "nossa, como esse ano passou depressa!".

E aos que dizem que é apenas uma data capitalista, que é só mais um feriado para o comércio ganhar dinheiro, digo que nunca tiveram um natal de verdade...

sábado

amigo é pra essas coisas

E é aqui que os amigos se separam. Daqui para frente cada um vai seguir sua vida, trilhar seu próprio caminho, e só Deus sabe se ainda vamos continuar a nos ver, ou se vamos nos reencontrar, por acaso, daqui a dez, vinte anos, ou se nunca mais nos veremos nesta vida. Mas tentar adivinhar o futuro é muito difícil e chega a ser doloroso pensar que pessoas que se tornaram tão especiais, em tão pouco tempo, podem desaparecer das nossas vidas.

Depois de tantos momentos especiais, lembranças que irão ficar para sempre, acabou. Os três melhores anos que alguém poderia desejar, exceto por alguns episódios quase irrelevantes, mas, com toda a certeza, os melhores. Depois de todos os sorrisos, as gargalhadas, as aventuras, as roubadas, as traquinagens, as brincadeiras, as idéias descabidas, os dias de chuva, os dias de sol, as partidas de futebol, as amizades, toda a alegria... acabou.

Às vezes a vida coloca em nossos caminhos pessoas que fazem toda a diferença. Pessoas que farão parte de nossas vidas mesmo depois de se distanciarem. Porque as lembranças permanecem e aquela sensação boa de ter os amigos por perto fica pelo resto da vida.

Se os nossos momentos juntos acabaram, amigos, saibam que foram momentos maravilhosos e que me lembro de todos vocês com um sorriso no rosto, o coração cheio de saudades e a memória repleta de belas lembranças.

segunda-feira

sonho

Não tinha a pretensão de conquistar o mundo. Se conquistasse a si próprio já seria um grande feito. Mas sonhava alto, sem medo de parecer ridículo ou ingênuo. Sonhava sem fazer planos, eram puros sonhos, não necessariamente impossíveis.
Queria pisar na lua.
Queria caminhar sobre a água.
Queria tocar uma estrela.
Queria andar de trenó.
Queria voar.
Queria um banho de mar.
Queria acordar no dia seguinte, poder abrir as janelas e respirar o ar fresco da manhã. Ah, as sensações mundanas... desejava sentir todas elas. Não desejava ser imortal, ou ter super-poderes. Sonhava em ser alguém melhor. E só por sonhar em sê-lo, já o era. E isso tornava sua memória imortal àqueles que realmente importavam. E o poder de ser feliz estava ali, em suas mãos, naquele instante.

Pois a felicidade é um instante apenas. Um instante em que tudo se alinha, em que tudo entra em harmonia por um único momento, por um ou mais motivos. Mas que dura apenas um instante. Se não fosse tão rara, não seria tão valiosa. Se não fosse tão possível, não seria tão desejada. E se não valesse a pena, não valeria a pena sonhar com ela.

quarta-feira

Após minutos de reflexão (não tão intensa assim), descobriu-se apaixonado. Era mágico e surpreendente, dava medo, mas dava vontade. A boca saliva, a garganta seca, as mãos suam, os olhos se ofuscam e um milhão de pensamentos cabem num único milésimo de segundo. É tão intenso... ele tem medo que, como veio, se vá. E o medo aumenta com cada olhar e diminui a cada sorriso. Podem se desgraçar agora, crianças, amar, enquanto for possível, enquanto lhes parecer eterno, ou divertido...

Seria engraçado se não fosse trágico. Apostas altas em número e combinações improváveis. Não apenas uma questão de probabilidade. Aqui a matemática não existe. Então o que há? Façam suas apostas. O tempo é curto e há muito o que perder.

Ela desviou os olhos dos olhos dele, olhos de um negro profundo, tinha medo que aqueles olhos a engolissem, ou pior, a desvendassem. E pode existir alguém com medo de olhos? Pode existir alguém cruel o suficiente para arrasar sonhos inteiros com apenas um instante e duas pupilas soturnas?
"Dói mais machucar um coração do que ver o nosso próprio sangrar", pensou, engolindo em seco. Como é que podia haver um nó tão grande em sua garganta se sua boca estava tão seca? Queria chorar, sentiu-se enfurecida por não consegui-lo. E ele ali, firmemente, friamente inerte. "Anda, diz alguma coisa". Nunca ouviu palavra. Se ele pensava naquele instante, ela nunca soube nem desconfiou o que era.
Pode-se dizer que acabou. Ele não tinha mais palavras. Ela não tinha mais lágrimas.

terça-feira

[sem título]

Sempre que olho ao redor vejo vultos, apenas vultos. Os túneis se acabaram, com eles acabaram-se também as luzes. Ora, se há vultos, há luzes. Basta saber onde é que estão. Não é uma questão de sorte. É questão de merecimento. Mas nem todas as proezas são recompensadas. Nem todos os problemas são solucionados. Nem todos os fracassados são infelizes. Nem todas as nuvens são alvas. Nem todas as verdades são para serem ditas. Nem todas as palavras têm sentido. Nem todos os sorrisos são de euforia.

"E tudo tem três lados".

segunda-feira

Águas turvas cristalinas

Bilhete

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...


Mario Quintana


E jorram baldes de amor das nuvens, em tempestades de fins de março.

Aos bem-amados, que aproveitem; aos mal-amados, que invejem; aos que não amam, que se afoguem; aos que amam demais, que se protejam; aos que não sabem amar, que inflem os botes; aos que sabem amar, sábios sofredores, que continuem a nadar.

Bem que lhe disseram que era perigoso tomar banho de chuva. Mas vê-la assim, cabelos molhados, vestido florido colado ao corpo, olhos embargados, os lábios úmidos, a pele fria, as mãos enrugadas e mesmo assim sorridente de riso espontâneo e incontrolável, é tentação demais. E, apesar da água fria, do vento e dos trovões, é o melhor banho que já experimentou na vida.

Agora eles rezam, sob a tormenta, para que a chuva não passe e se passar, que não os deixe resfriados...

Mas é março, a chuva é breve, pela manhã o sol secará tudo e os raios não caem duas vezes num mesmo lugar.

domingo

E despedaça-se mais um coração

A dor lhe transbordava pelos poros e nada podia fazer para acabar com aquele sofrimento. Era uma dor espiritual, muito pior que uma dor física, não era o fígado, não era um joelho, não era nos pés. Era dor que não se sente doer, era dor que apenas se sente existir.

Sabe-se lá o que se passava em sua mente, sabe-se lá quantas células se multiplicavam, tristemente, em seu corpo. Naquele intante era apenas dor e doía cada vez mais, cada vez mais forte. E a dor não o matava, torturava-o. Os arrepios não paravam de chegar. Os calafrios se espalhavam por seu corpo. Os copos se entornavam antes de lhe tocarem os lábios. Toda a sede que sentia era por paz. Fome não tinha. Até a fome lhe abandonara. Até as vontades mais simples lhe eram tão somente vontades sem razão. E a razão cabia em seu bolso. Seu dinheiro era líquido, seu destino vazio. Pois trate de encher minha alma feita de vidro embaçado! Os pensamentos que lhe escorriam garganta abaixo eram queimantes. Causavam-lhe azia, não eram suficientemente bondosos a lhe causarem ânsia.E tudo o que passava em sua mente era dor, enquanto os olhos pesavam, cheios de lágrimas profusas.

Não há imagem lúdica que o descreva. Não há palavra que o defina. Que definhe, enfim! Deixe-me em paz, por enquanto durarem meus sentidos e meu sentido for certo. Se é que há certeza em qualquer parte. Já que eu ainda acredito nela, mas ele, sábio do momento desfeito, sabe que nem a morte é certa, pois se fosse, já o teria acertado.

sábado

Um porre inesquecível...

Meu primeiro porre. De quem foi a idéia de fazer caipirinha num balde!? Mato esse idiota...
Pelo menos aprendi a lição. Acho que vou ficar um tempinho sem beber, só por via das dúvidas.
Estraguei meu estômago, matei um pedacinho do meu fígado, arruinei minha imagem, desperdicei uma noite que tinha de tudo para ser muito especial... E tudo por quê? Por nada. Por algo que, no fim das contas, nem valeu tanto a pena assim...
Mas a vida é assim mesmo. Nem tudo é perfeito. Há coisas que devem ser aprendidas com a experiência. O que podemos fazer é apenas viver e se arrepender das besteiras que fazemos. Arrepender-se não é fraqueza, é admitir que somos seres humanos, sujeitos a erros, imperfeições.
Não pretendo justificar meu erro. Errei. Só não quero ficar me culpando por isso pelo resto da vida. Passou.

E junto foi a Federal. Três anos incríveis, com pessoas incríveis, amigos incríveis, aulas medíocres, momentos inesquecíveis...
Foram tantas risadas, trapalhadas, cagadas, broncas... tantos dias simples que se tornaram especiais... foram anos dos quais eu não pretendo me esquecer.

Quanto ao porre... O que restam são as poucas lembranças, principalmente a respeito das más sensações, uma dor no estômago, outra na cabeça e o arrependimento. Que seja o primeiro e último...