segunda-feira

Todas as coisas dizem respeito à nossa vida. Mesmo que nunca as tenhamos vivido. Mesmo que vivamos todas elas de uma única vez.


Quanto tempo passei vagando pelas ruas de uma cidade que nunca foi minha, que nunca me acolheu. Hoje olho para trás e não vejo mais que algumas cervejas, uns tantos cigarros e noites sem estrelas. E o que mais me chateia é saber que caminhei em círculos esses anos todos, que todas as pessoas que vim a conhecer não me conheceram de fato e que todos os sonhos que sonhei em ter, foram apenas sonhos.

Não que eu quisesse ser normal, apenas queria ser feliz. E por mais que me esforce, não consigo me lembrar de nenhum sorriso, surgido em meus lábios, que tenha brotado do âmago de minha alma.

Meu espírito sempre foi livre, sempre vagou e divagou por aí sem depender de minhas vontades. Quem quer que seja que me assombre por agora, faz isso sem se dar conta de meus próprios maus presságios, ousa tentar roubar minha alma, mas esta já se foi há tempos, já me abandonou, como todos os outros fizeram comigo e sei que continuarão a fazer.

Não tenho muitos arrependimentos, talvez o maior e mais grave deles seja aquele que nasce do desejo de voltar no tempo, tentar consertar coisas que fiz e disse que sei que não posso mudar, por mais que me esforce. Não deveria tê-la abandonado, não deveria ter dito as coisas cruéis que disse a pessoa que mais cheguei perto de amar.

Sempre que me deito em meu travesseiro de ilusões, acabo dando com as têmporas no concreto morno, não sei mais se penso nela ou em mim. Não tenho motivos, esperanças tampouco, para crer que tudo vai passar. Só me resta o consolo em saber que ela também é infeliz.

sábado

(des)amarras II

Não se trata de confusão. É conclusão. Ele, apesar de nunca ter desejado que assim fosse, sempre soube o que ela sentia e sempre soube que ela não deixa as coisas para mais tarde.

Para ela não é conveniente, mas não chega a ser inconveniente. As coisas acontecem, as paixões acontecem, as amizades prevalecem.

É o que não se pode mudar: as mudanças. Os sentimentos, os pensamentos mudam o tempo todo, mas nem sempre as coisas mudam ao mesmo tempo para duas pessoas tão diferentes e tão parecidas.

Ele continua a alimentar esperanças que ela nunca lhe deu. Ela continua a matá-lo aos poucos, sabe o quanto é nociva e sabe que seus esforços de mudar isso são inúteis. Ela não quer matá-lo, mas talvez ele queira morrer.

Seus sentimentos caminham em linhas paralelas, numa mesma direção. E as linhas que cruzam o caminho de um, inevitavelmente, cruzam o caminha do outro.

Entre um cigarro e outro, uma cerveja e outra, um café e outro, seus sentimentos se atropelam, suas certezas caem por terra, resta ali, pura e simplesmente, a companhia um do outro. E são momentos em que (quase sempre) ambos sentem-se felizes, em que seus pensamentos se alinham e basta apenas um olhar e o outro já nem precisa ouvir o que o outro dirá, já se sabe, até mesmo das palavras por trás das palavras, os sentimentos por trás dos sorrisos forçados, as verdades por trás das brincadeiras.

Ela o conhece, pois o possui. Ele a conhece, sem nunca tê-la possuído. Ele brinca, ela finge não saber das verdades sob as palavras cafonas. Ela revida, ele finge não se importar com as palavras (nem sempre) doces.

Ela vive a própria vida, ele é, para ela, especial. Ele sobrevive à vida, ela é, para ele, mais que especial. Talvez seja esse o problema: ele a colocou num pedestal, mas alguém tão mundana como ela não merece ser endeusada. E todas as vezes que ela tropeça, ele desaba. E ela não se importa em tropeçar, crê, realmente, no arrependimento, no carpe diem e que todas as pessoas são como ela. Uma pena não serem, senão o jeito diferente como ela enxerga as coisas seria comum e ela seria esquecida. E ainda bem que não são, pois seria um inferno se todas as pessoas concordassem com ela.

Quem nunca se apaixonou, que atire a primeira pedra. Ela lança uma pedra no rio, sem saber que ambos se afogam em suas águas, sem saber nadar. A culpa não é de ninguém, "se não fosse isso, seria outra coisa"¹.

Ele lhe traz doze dúzias de flores roxas, uma pena ela preferir as amarelas...



¹AMADO, Jorge. Mar Morto. 1936