Todas as coisas dizem respeito à nossa vida. Mesmo que nunca as tenhamos vivido. Mesmo que vivamos todas elas de uma única vez.
Quanto tempo passei vagando pelas ruas de uma cidade que nunca foi minha, que nunca me acolheu. Hoje olho para trás e não vejo mais que algumas cervejas, uns tantos cigarros e noites sem estrelas. E o que mais me chateia é saber que caminhei em círculos esses anos todos, que todas as pessoas que vim a conhecer não me conheceram de fato e que todos os sonhos que sonhei em ter, foram apenas sonhos.
Não que eu quisesse ser normal, apenas queria ser feliz. E por mais que me esforce, não consigo me lembrar de nenhum sorriso, surgido em meus lábios, que tenha brotado do âmago de minha alma.
Meu espírito sempre foi livre, sempre vagou e divagou por aí sem depender de minhas vontades. Quem quer que seja que me assombre por agora, faz isso sem se dar conta de meus próprios maus presságios, ousa tentar roubar minha alma, mas esta já se foi há tempos, já me abandonou, como todos os outros fizeram comigo e sei que continuarão a fazer.
Não tenho muitos arrependimentos, talvez o maior e mais grave deles seja aquele que nasce do desejo de voltar no tempo, tentar consertar coisas que fiz e disse que sei que não posso mudar, por mais que me esforce. Não deveria tê-la abandonado, não deveria ter dito as coisas cruéis que disse a pessoa que mais cheguei perto de amar.
Sempre que me deito em meu travesseiro de ilusões, acabo dando com as têmporas no concreto morno, não sei mais se penso nela ou em mim. Não tenho motivos, esperanças tampouco, para crer que tudo vai passar. Só me resta o consolo em saber que ela também é infeliz.