Não se trata de confusão. É conclusão. Ele, apesar de nunca ter desejado que assim fosse, sempre soube o que ela sentia e sempre soube que ela não deixa as coisas para mais tarde.
Para ela não é conveniente, mas não chega a ser inconveniente. As coisas acontecem, as paixões acontecem, as amizades prevalecem.
É o que não se pode mudar: as mudanças. Os sentimentos, os pensamentos mudam o tempo todo, mas nem sempre as coisas mudam ao mesmo tempo para duas pessoas tão diferentes e tão parecidas.
Ele continua a alimentar esperanças que ela nunca lhe deu. Ela continua a matá-lo aos poucos, sabe o quanto é nociva e sabe que seus esforços de mudar isso são inúteis. Ela não quer matá-lo, mas talvez ele queira morrer.
Seus sentimentos caminham em linhas paralelas, numa mesma direção. E as linhas que cruzam o caminho de um, inevitavelmente, cruzam o caminha do outro.
Entre um cigarro e outro, uma cerveja e outra, um café e outro, seus sentimentos se atropelam, suas certezas caem por terra, resta ali, pura e simplesmente, a companhia um do outro. E são momentos em que (quase sempre) ambos sentem-se felizes, em que seus pensamentos se alinham e basta apenas um olhar e o outro já nem precisa ouvir o que o outro dirá, já se sabe, até mesmo das palavras por trás das palavras, os sentimentos por trás dos sorrisos forçados, as verdades por trás das brincadeiras.
Ela o conhece, pois o possui. Ele a conhece, sem nunca tê-la possuído. Ele brinca, ela finge não saber das verdades sob as palavras cafonas. Ela revida, ele finge não se importar com as palavras (nem sempre) doces.
Ela vive a própria vida, ele é, para ela, especial. Ele sobrevive à vida, ela é, para ele, mais que especial. Talvez seja esse o problema: ele a colocou num pedestal, mas alguém tão mundana como ela não merece ser endeusada. E todas as vezes que ela tropeça, ele desaba. E ela não se importa em tropeçar, crê, realmente, no arrependimento, no carpe diem e que todas as pessoas são como ela. Uma pena não serem, senão o jeito diferente como ela enxerga as coisas seria comum e ela seria esquecida. E ainda bem que não são, pois seria um inferno se todas as pessoas concordassem com ela.
Quem nunca se apaixonou, que atire a primeira pedra. Ela lança uma pedra no rio, sem saber que ambos se afogam em suas águas, sem saber nadar. A culpa não é de ninguém, "se não fosse isso, seria outra coisa"¹.
Ele lhe traz doze dúzias de flores roxas, uma pena ela preferir as amarelas...
¹AMADO, Jorge. Mar Morto. 1936