terça-feira

anseios, vontade, desejos, repulsa III

Ele está satisfeito. Satisfeito de meu corpo, vejo isso em seu suor, sua respiração ofegante. Vejo isso pairando no ar pesado de calor e repentino silêncio. Quero sentí-lo novamente em mim, sentir nossos corpos colados, colantes. Minhas palavras não o convencem, responde-me seco, monossílabo. Vejo-o acendendo seu cigarro derradeiro, indicando-me que é o fim. Está satisfeito e não sei ao certo se ele acha que me satisfaço ao vê-lo exausto. Concordo, dessa vez, já que não quer me fazer mulher, contento-me que esteja, simplesmente, ao meu lado.

Mas o mesmo suor que nos uniu, a poucos minutos atrás, repele-nos violentamente, como pólos opostos de ímãs. Ele me rejeita, diz-me meia dúzia de ofensas, esperando, quem sabe que eu me cale, baixe a cabeça. Orgulhosa, mesmo querendo que ele fique, mesmo que seja adormecido madrugada a dentro, cubro o corpo e o expulso do quarto. Ele sorri, veste as calças, apaga o cigarro, põe a camisa e, antes de bater a porta ruidosamente, diz-me que vai ligar. Cínico. Trata-me como pedaço de carne gordurosa, come desgostoso e ainda cospe fora os nervos indigestos.

Ao deixar-me, deixa também uma mágoa em meu peito, deixa a sombra de seus pensamentos em outra. Mas sinto-me, ao mesmo tempo, aliviada, pois, junto com seu cinísmo, leva também o peso de sua respiração, o peso da fumaça de seu cigarro, o peso de seu desprezo, o peso no ar. Não posso deixar de sorrir. Agora estou vingada: meus pensamentos e sentimentos ocupam-se em odiar a outra, não mais em amá-lo.


Este post baseia-se nos posts a seguir:
Anseios, vontade, desejos, repulsa
Anseios, vontade, desejos, repulsa II

segunda-feira

a dissimulada

Ou "A do ego gigante".
Ou "A do orgulho irredutível".
Ou "A das mentiras sinceras".
Ou "A das terceiras intenções".
Ou "A dos valores invertidos".
Ou "A dos semi-limites".
Ou "A sem planos".
Ou "A anti-amor".

Decerto os humanos possuem defeitos, porém há controvérsias se a tal a qual me refiro seja mesmo deste mundo. Ser contra-tudo é fácil, difícil mesmo é discordar de tudo e todos e ainda tentar provar que são todos os outros que estão errados. Uns chamariam isso de dissimulação. Não sei bem se seria a palavra correta. Capitu que se defenda de suas acusações. Há mais de cem anos titio Machado imortalizou a dúvida e tolos dos que não se contentam com a dúvida. Acreditar nas palavras de alguém é atirar-se no escuro. Palavras são apenas palavras.

E a tal da garota continua a dar a si própria o benefício da dúvida, continua a defender a relatividade das coisas, continua a dissimular, continua a "Capituar".

A dissimulação é a mesma. Tire-lhe os olhos de ressaca, coloque-lhe um sorriso multifacetado e obterás a tal garota. Só não pense que finalmente a compreendeu, ela mesma continua a procurar D. Capitolina, na esperança de convidá-la para um café com bolachas e colocar a conversa e as idéias em dia.